
Ontem à noite vi um programa no canal Travel que me fez viajar no tempo. O programa era sobre Cabo Verde, local onde vivi e trabalhei durante um ano.
A minha relação com Cabo Verde é um misto de encanto e desencanto, de saudade e de trauma, de amor e desamor. Tinha apenas 23 anos quando deixei tudo para trás para ir dar aulas para lá. Não o fiz por ser aventureira e por querer conhecer novas culturas, ainda que tal se tivesse proporcionado. Fi-lo para evitar o desemprego, era professora recém-licenciada e parecia que todas as portas se fechavam em meu redor quando aquela se abriu.
Vivi um ano numa das ilhas mais pobres do arquipélago com um colega com quem não tinha qualquer tipo de compatibilidade e, como tal, só me restou o isolamento. Perdi a conta das horas que passei na minha varanda sobre o mar a olhar o horizonte, que volta e meia me presenteava com o vislumbre de golfinhos ou baleias, a contar os dias para regressar a casa. Nunca mais viverei numa casa a 10 metros da praia! Posso dizer que sofri muito, a solidão é indubitavelmente o pior dos males. Se facilmente me adaptei a comer 20 vezes por semana atum, a só ter uma marca de iogurtes na prateleira do supermercado, a comprar arroz e outros alimentos a granel, a comprar galinhas ao padre, a regressar à idade média em múltiplos aspectos, nunca me habituei a estar a viver isolada numa ilha minúscula no meio do nada. É sufocante. Lembro que não havia acesso à cultura: nada de cinema, teatro, revistas, jornais...passei um ano ausente de tudo, mas acabei por ter a vantagem de ter tempo para ler e nunca li tanto na minha vida, devorava livros, a minha única companhia.
Mas ao mesmo tempo tenho boas recordações daquele lugar: a alegria contagiante das pessoas, a vontade de aprender do alunos, a beleza natural, o peixe maravilhoso, a gastronomia, a "morabezza" (arte de bem receber), o conhecimento do crioulo, as mornas da Teté Alhinho, a cultura, nadar com as tartarugas gigantes, ver os peixinhos na água cristalina de um oceano imenso, ter uma praia só para mim...enfim, ontem percebi, ao recordar Cabo Verde, que fiz as pazes com o passado e estou preparada para lembrá-lo com saudade. Espero ter a oportunidade de lá voltar e poder viver aquele país como merece ser vivido!